sexta-feira, 29 de julho de 2011

Memórias de um político

Para satisfação de ambições pessoais, deveria ter-me amoldado ao estilo da época, tornando-me manhoso com os malabaristas, fingindo de inocente com os ingénuos e desculpando os desmandos do presente com a evocação dos excessos, aliás bem menores, do passado. Em vez disso, preferi combater os destemperos, as violências e as incapacidades financeiras e económicas do Sidonismo pelo que elas encerravam, em si próprias, de pecaminoso e aviltante à face do direito, da moral e das autênticas necessidades da nossa grei. Ao que se viu, causei um pouco de espanto a todos os politiquetes superficiais com o ardor da minha voz sibilante de beirão de cepa, com a minha tez morena e com a austera independência dos juízos por mim formulados com implacável lógica. Donde vinha e o que queria este moço sacudido? - perguntava-se, segundo mais tarde vieram a afirmá-lo historiadores dessa época. A resposta parecia difícil, quando, na realidade, se revestia de uma simplicidade dionisíaca: vinha da Beira baixa, reduto de virtudes ancestrais, e não a renegava nem no dialetismo da pronúncia nem na rudeza de certo modo eloquente das minhas convicções; e queria ver a Pátria encaminhada em direcção a um futuro mais feliz por métodos mais acertados, com mais vincantes preocupações pelo destino de um povo condenado à miséria, à ignorância, à doença e ao desconsolo. Eis pois de onde vinha e o que queria. Mas acontece - aconteceu sempre desde que o mundo é mundo - que as criaturas vis e imorais pretendem, obstinadamente, medir os outros pela bitola da sua própria imoralidade e da sua intrínseca vileza. por isso, claro está, não me acreditaram."

nota - extracto das Memórias de Cunha Leal, um político do século XX que ninguèm conseguiu calar. Estas Memórias foram escritas em 1966, no Alcaide, sua terra natal.

Obs. Parece-me uma reflexão muito actual ainda.

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